Postado em 12/02/2021 “O que querem os Amazônidas?”
12/02/2021 09:14
Alfredo M.R. Lopes (*) alfredo.
lopes@uol.com.br
“Nosso portal BrasilAmazoniaAgora assinou no mês passado e
disseminou o manifesto de uma
centena de entidades científicas,
acadêmicas e tecnológicas, já
com quase 80 mil assinaturas,
para reverter dois vetos do presidente da República que confiscam R$ 9 bilhões do fomento à
ciência, representado no Fundo
Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (FNDCT).”
Por Alfredo Lopes
Ficou parada no ar a pergunta formulada pela ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella
Teixeira, durante o primeiro
episódio dos Diálogos com a
Amazônia, da FGV, com apoio
da FIEAM/CIEAM/ELETROS e
ABRACICLO, entidades do Polo
Industrial de Manaus, ocorrido
no dia 8 de fevereiro último.
Sob a coordenação do professor Márcio Holland, da FGV, o
evento contou com a presença
de Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, o professor Augusto Rocha, UFAM,
a jornalista Daniela Chiaretti,
Valor, e o professor Daniel Vargas, FGV. O tema foi Bioeconomia, a sensação do momento
no noticiário da Amazônia. A
pergunta surge da constatação
de que muitos “especialistas” da
questão amazônica esquecem,
frequentemente, de perguntar o que fazem e o que querem
os habitantes os Amazônidas.
Cooperar é verbo preferencial
É necessário, antes de qualquer ensaio de resposta para
uma questão tão prosaica, com
variantes tão diversas em suas
expectativas, explicitar o que
não queremos mais para esta
pátria das águas e da biodiversidade exuberante. Abominamos a quantidade absurda
de iniciativas messiânicas de
salvação. Precisamos e acolheremos, entretanto, a atitude da
cooperação. Desconfiamos daqueles que aqui desembarcam
com a narrativa da redenção
florestal. Cooperar é nosso verbo preferencial de conjugação
fundamental, à qual conferimos
sentido auspicioso e promissor.
Cooperar é operar em conjunto,
como se diz na tribo, trabalhar
em mutirão. Como faz a floresta
em sua dinâmica vital, equilibrada, multidisciplinar e interativa
por essência e subsistência.
Paradigma puxirum
Incomoda-nos, desde o Ciclo das Ervas do Sertão, a visão
predatória daqueles que buscam
nossos bens desvinculados do
nosso bem comum. O predador
foi quem promoveu o genocídio
de milhares de etnias, destruiu
culturas, aniquilou tesouros etnobotânico irrecuperáveis. Essa
postura ainda permanece, e é
frequentemente travestida de
bom-mocismo. Prova disso é a
identificação da biologia molecular amazônica em 25% dos
princípios ativos da Indústria
farmacêutica. Não serão bem-
-vindas, portanto, atores que
não se dispõem ao regime do
puxirum, termo indígena que
traduz a cultura do trabalho
conjunto. Esse termo, aliás, foi
incorporado na rotina dos pesquisadores do INPA, Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia, nos projetos de partilha
de conhecimento da biota Amazônia envolvendo professores
da rede pública ou privada de
ensino em suas diversas etapas.
A polis, o equilíbrio e a
equidade
Também não queremos a
presença da política partidária
e eleitoreira que corrompe as
políticas públicas de promoção
da vida e dos saberes, tanto os
tradicionais como o acadêmico e
vivencial. Todos os nossos gestos são políticos no sentido do
ordenamento da polis, o tecido
social, seu equilíbrio e equidade,
e devem romper as desigualdades criminosas nessa região que
é, sem dúvida, a mais pródiga
da Terra em recursos naturais e
onde, ironicamente, persistem
as mais constrangedoras taxas
de desenvolvimento humano.
Somos uma floresta robusta ameaçada e habitada por uma
população, majoritariamente,
miserável. As políticas econômicas e socioambientais do
país para a região, à luz desses
indicadores, são a história do
fracasso, sinal de que o país permanece de costas e de cócoras
para a Hileia.
Por direito e por justiça
E tudo o que queremos, por
direito e por justiça, começa
com o fim do confisco da riqueza aqui gerada. Temos um
programa de desenvolvimento
regional, há 54 anos, a Zona
Franca de Manaus, que tem
sido desfigurado em seus acertos e propósitos de redução das
inaceitáveis disparidades entre
o Norte e o Sul do Brasil. Querer o que é de direito significa,
em qualquer circunstância, que
não precisamos de salvação.
Precisamos de respeito à Lei
Maior que nos concede 8% de
contrapartida fiscal por nossa
condição de região remota, isolada por terra, determinando
que a riqueza daí gerada venha
reparar a promiscuidade institucional das desigualdades.
Potencialidades naturais aqui
são imensas, a sustentabilidade
é nosso paradigma de condutas, e a qualificação de recursos
humanos, associada a estruturas arrojadas de pesquisas, são
as nossas metas.
O lamaçal do descaso
O mundo inteiro viu como
o Brasil nos trata como cidadãos de segunda classe, ao ver
carretas atoladas na lama do
descaso – puxadas por tratores – transportando oxigênio
para salvar vidas em Manaus.
Recompor a BR-319 é questão
de direitos civis, pois a estrada
não apenas repõe nosso direito
de ir e vir, mas permitirá emprego, renda e adensamento
da floresta, com a centena de
espécies de palmeiras oleaginosas de seu traçado. Geramos
recursos locais para esse tipo
de projeto que será fator de
reflorestamento de suas margens e, a partir daí, parques tecnológicos de desenvolvimento
sustentável de cosméticos, fármacos e alimentos funcionais.
Para começo de conversa. Isso,
porém, não rima com hipocrisia
ambiental muito menos confisco de verbas destinadas à
pesquisa, desenvolvimento e
inovação.
Chega de confisco!
Nosso portal BrasilAmazoniaAgora assinou no mês passado e disseminou o manifesto
de uma centena de entidades
científicas, acadêmicas e tecnológicas, já com quase 80 mil
assinaturas, para reverter dois
vetos do presidente da República que confiscam R$ 9 bilhões do
fomento à ciência, representado
no Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Num contexto
de pandemia e de atrofiamento
da pesquisa nas instituições do
Brasil, o confisco promove desvio grave de finalidades de um
Fundo que é recolhido exclusivamente pelas empresas, notadamente por aquelas instaladas
na Zona Franca de Manaus. O
FNDCT foi criado em 1969 para
expandir ciência e tecnologia no
país. Em 1995, Brasil, China e
Coreia do Sul tinham o mesmo
PIB, mas já apostavam sempre
percentuais diferenciados para a
Ciência. Em média, investimos
sempre a metade dos demais em
C&T&I. Por isso nosso atraso e
o elevado estágio de civilização
dos países asiáticos. Por isso,
também, seguiremos perdendo
1200 vidas a cada dia. Os governantes subestimaram a COVID-19, desprezaram o poder
das vacinas, e radicalizaram o
descaso com a Ciência. O resultado não podia ser diferente da
morte e o vexame de ampliação
do atraso. Cabe finalizar com a
pergunta inversa: o que o Brasil
quer da Amazônia se despreza
a cadeia do conhecimento em
detrimento de sua Bioeconomia
redentora?
(*) Alfredo é consultor do
CIEAM – Centro da Indústria do
Estado Amazonas