Postado em 04/04/2023 Industrializar o Brasil

04/04/2023
Por Augusto Barreto Rocha
Doutor em engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
Industrializar ou reindustrializar?
A derrocada da indústria nacional
foi tão acentuada que em 2021 o
país retrocedeu ao nível de 1947.
O Prof. Cláudio Considera (UFF)
demonstrou em artigo que a
indústria brasileira da
transformação está “à beira da
extinção”, de 36% do PIB em 1985
para 11% em 2021. Compartilho a
perspectiva dele, que aponta uma
possível rota de saída, com a
integração das universidades às
empresas, para construir um
crescimento e mudança deste
cenário desolador.
Manaus é uma cidade industrial,
formada por cadeias produtivas
globais, fortemente dependentes
de importações, mas que se
encontra em um crescimento
razoável, comparado com o
restante do Brasil. 0 modelo de
redução das barreiras comerciais adotado nos últimos anos
atrapalhou a competitividade da
indústria nacional. A ausência de
impostos e apoio tecnológico são
os grandes incentivos para o
modelo extrativista e agrícola
exportador.
Incentivamos o “agroexportador”,
onde os benefícios vão para um
consumidor estrangeiro, com
baixíssimo valor agregado
nacional, quer seja pelo trabalho
pouco remunerado, quer seja pela
ausência de transformação
industrial. Também favorecemos o
produtor industrial estrangeiro,
que agrega valor ao que importa
daqui e de outros países
produtores de commodities,
exportando para o Brasil os
produtos industriais e de serviços
com altíssimo valor agregado,
enquanto toneladas de soja são
necessárias para comprar apenas
um equipamento importado.
Esta conta “não fecha” e precisa
passar por revisões. Industrializar
o país e colocar os serviços
novamente na pauta de
exportações, desde a construção
civil até o software. Esta rota
transformadora é fácil de falar e
difícil de fazer. Outra
oportunidade ainda mais
desafiante será a de explorar
sustentavelmente a
biodiversidade, que é um dos
caminhos para a construção do
futuro próspero na Amazônia.
0 problema é que precisaremos de
anos para chegar nestas intenções.
0 grande desafio será a mudança
de perspectiva em relação ao
modelo mental extrativista e
destruidor, que reina em nossa
elite econômica, com baixa
produtividade de processos e alta
eficiência financeira.
Manaus pode se posicionar como
um epicentro na retomada
industrial nacional, pois já conta
com uma indústria avançada em
tecnologia, dotada de cadeias de
fornecedores globais, que poderá
adensar a sua estrutura para
maior produção de insumos no
Brasil, que, se forem competitivos,
poderão transformar a cidade em
uma plataforma exportadora.
Esforços de longo prazo não são
nosso ponto forte. Um ecossistema
inovador e produtivo pode
começar a dar frutos em uma
década, se for feito um esforço
sistêmico e coordenado. A
experiência do Polo Industrial de
Manaus, em outros subsetores,
podería ser aproveitada. Para isso,
precisaremos alterar o
pensamento padrão dos governos
federal e estadual sobre as
riquezas naturais: sair da extração
e passar para a transformação
sustentável.
Há espaço nos comércios para
tantas mudanças? Certamente
sim, mas não teremos apoios
externos, pois não convém ver o
Brasil voltar para o topo da elite
econômica global, afinal em 2012
estávamos como a 6a maior
economia do mundo e em 2022
fomos a 12a. A dúvida é como
convencer os empresários dos
setores vinculados com esta
indústria que este é um interesse
viável. Talvez com apoio da
imprensa e da sociedade,
estimulando a migração de
recursos da ciranda financeira
para uma produção sustentável.
Hoje estamos longe disso, mas
precisamos acordar para o que
está em jogo.