Postado em 14/08/2015 Governo está no caminho errado, mas não defendo impeachment, diz Robson Braga de Andrade
Postado em 14/08/2015h
em Notícias
14/08/2015
A falta de força política do governo para aprovar mudanças é hoje uma das maiores dificuldades na busca de um rumo para a saída da crise, segundo o presidente da CNI, Robson Andrade. O executivo afirma ser contrário à possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff, mas que o governo está em um “caminho errado” em relação ao ajuste fiscal. O empresário diz ainda que, durante a crise que derrubou o ex-presidente Collor, o país tinha um Congresso mais estruturado e lideranças políticas expressivas. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Folha – A situação ainda vai piorar ou chegamos ao fundo do poço?
Robson Braga de Andrade – Não acredito que chegamos ao fundo do poço, mas precisamos começar a ver resultado. Só medidas pontuais, não resolvem.
Folha – Se medidas de ajuste tivessem passado teriam trazido alívio?
Mesmo que as desonerações tivessem sido aprovadas pelo Congresso, não resolveriam o problema do deficit. O governo contava com uma receita tributária inexistente porque a atividade econômica está caindo.
Folha – Como compara essa crise com a de Collor?
O Brasil hoje é mais maduro. Na época do Collor, vínhamos de uma inflação superior a 200% ao ano, tivemos planos econômicos que não deram certo. Hoje, há mais estabilidade. Tínhamos um Congresso estruturado e uma certa organização política. Temos condições de ter uma liderança adequada.
Folha – A liderança foi escolhida nas últimas eleições. O que seria pior para a indústria, a saída da presidente ou um governo fraco por três anos?
Escolhemos em outubro a liderança que gostaríamos de ter, mas escolhemos em cima de um programa de governo em que acreditávamos, de gestão, de crescimento. Por uma série de fatores econômicos e políticos, não se efetivou. Temos agora de ajudar a construir um país diferente. As instituições têm de ser respeitadas. Foi eleita, tem de respeitar e ajudar a construir o país dentro do sistema político que temos, com a liderança que escolhemos. Mas é necessário também que ela tome as decisões que o país precisa, não podemos ficar à mercê de problemas políticos.
Folha – O sr. é a favor do impeachment da presidente?
Não sou a favor. Temos mecanismos da Justiça que têm de avaliar essas questões. Não acho que simplesmente o impeachment resolverá. O que vai resolver é ajudarmos a construir um Brasil diferente do que temos hoje. Não estou falando que tem de apoiar a presidente, mas que nós temos de achar um caminho para que nossos representantes, principalmente o Congresso, aprovem as medidas necessárias. A eleição da presidente é mais visível, mas, em 2014, as promessas dos candidatos aos governos, ao Senado e à Câmara, foram as mesmas, de que vão melhorar [o país]. Estamos esperando por isso e acho que temos de dar as mãos e ajudar a construir. Se a economia melhorar e o país voltar a crescer, a tendência é que a [impopularidade] mude completamente.
Folha – Quais os efeitos da operação Lava Jato sobre a indústria?
Algumas empresas são de grupos grandes, com outras atividades além da construção pesada. Vão se reestruturar e sair dessa situação melhores, com mais governança e transparência. Não sei se terão interesse em participar de negócios com governos. Empresas [não envolvidas na Lava Jato] se mostram reticentes em trabalhar para o governo com receio de serem ligadas a irregularidades.
Folha – O ministro Joaquim Levy disse que empresas atrasam o pagamento de impostos, o que contribui para derrubar a arrecadação. Isso tem ocorrido?
Não tenho visto. Mas há alguns anos, conversando com um secretário da Fazenda, ele me disse: “Primeiro temos o pagamento de despesas obrigatórias, depois os salários, as despesas correntes do Estado, aí, se sobrar dinheiro, a gente paga os empresários que nos forneceram”. Isso deveria valer também na iniciativa privada. Pagar primeiro salários, fornecedores, despesas, tirar o lucro do investidor e, se sobrar dinheiro, pagar os impostos. Os governos não concordam com isso e têm mecanismos de pressão que nós não temos.
Folha – O sr. acredita que poderá haver aumento de imposto?
Não acredito porque não tem mais onde aumentar.
Folha – Há sugestão de fora do governo de acabar com o lucro presumido. O que o sr. acha?
Acho um absurdo ideias de que aumentar imposto resolve a situação. Acabar com o lucro presumido não significa que quem não pagava imposto, passará a pagar. Há a proposta do ministro Afif Domingos [da Secretaria da Micro e Pequena Empresa] de reduzir impostos para uma certa faixa. Haverá queda de receita. Será suprida com alta de tributação sobre as empresas acima desse limite?
*Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
Entrevista publicada nesta sexta-feira (14) na coluna Mercado Aberto, do jornal Folha de S. Paulo
Fonte: Portal da Indústria (CNI)
Folha – A situação ainda vai piorar ou chegamos ao fundo do poço?
Robson Braga de Andrade – Não acredito que chegamos ao fundo do poço, mas precisamos começar a ver resultado. Só medidas pontuais, não resolvem.
Folha – Se medidas de ajuste tivessem passado teriam trazido alívio?
Mesmo que as desonerações tivessem sido aprovadas pelo Congresso, não resolveriam o problema do deficit. O governo contava com uma receita tributária inexistente porque a atividade econômica está caindo.
Folha – Como compara essa crise com a de Collor?
O Brasil hoje é mais maduro. Na época do Collor, vínhamos de uma inflação superior a 200% ao ano, tivemos planos econômicos que não deram certo. Hoje, há mais estabilidade. Tínhamos um Congresso estruturado e uma certa organização política. Temos condições de ter uma liderança adequada.
Folha – A liderança foi escolhida nas últimas eleições. O que seria pior para a indústria, a saída da presidente ou um governo fraco por três anos?
Escolhemos em outubro a liderança que gostaríamos de ter, mas escolhemos em cima de um programa de governo em que acreditávamos, de gestão, de crescimento. Por uma série de fatores econômicos e políticos, não se efetivou. Temos agora de ajudar a construir um país diferente. As instituições têm de ser respeitadas. Foi eleita, tem de respeitar e ajudar a construir o país dentro do sistema político que temos, com a liderança que escolhemos. Mas é necessário também que ela tome as decisões que o país precisa, não podemos ficar à mercê de problemas políticos.
Folha – O sr. é a favor do impeachment da presidente?
Não sou a favor. Temos mecanismos da Justiça que têm de avaliar essas questões. Não acho que simplesmente o impeachment resolverá. O que vai resolver é ajudarmos a construir um Brasil diferente do que temos hoje. Não estou falando que tem de apoiar a presidente, mas que nós temos de achar um caminho para que nossos representantes, principalmente o Congresso, aprovem as medidas necessárias. A eleição da presidente é mais visível, mas, em 2014, as promessas dos candidatos aos governos, ao Senado e à Câmara, foram as mesmas, de que vão melhorar [o país]. Estamos esperando por isso e acho que temos de dar as mãos e ajudar a construir. Se a economia melhorar e o país voltar a crescer, a tendência é que a [impopularidade] mude completamente.
Folha – Quais os efeitos da operação Lava Jato sobre a indústria?
Algumas empresas são de grupos grandes, com outras atividades além da construção pesada. Vão se reestruturar e sair dessa situação melhores, com mais governança e transparência. Não sei se terão interesse em participar de negócios com governos. Empresas [não envolvidas na Lava Jato] se mostram reticentes em trabalhar para o governo com receio de serem ligadas a irregularidades.
Folha – O ministro Joaquim Levy disse que empresas atrasam o pagamento de impostos, o que contribui para derrubar a arrecadação. Isso tem ocorrido?
Não tenho visto. Mas há alguns anos, conversando com um secretário da Fazenda, ele me disse: “Primeiro temos o pagamento de despesas obrigatórias, depois os salários, as despesas correntes do Estado, aí, se sobrar dinheiro, a gente paga os empresários que nos forneceram”. Isso deveria valer também na iniciativa privada. Pagar primeiro salários, fornecedores, despesas, tirar o lucro do investidor e, se sobrar dinheiro, pagar os impostos. Os governos não concordam com isso e têm mecanismos de pressão que nós não temos.
Folha – O sr. acredita que poderá haver aumento de imposto?
Não acredito porque não tem mais onde aumentar.
Folha – Há sugestão de fora do governo de acabar com o lucro presumido. O que o sr. acha?
Acho um absurdo ideias de que aumentar imposto resolve a situação. Acabar com o lucro presumido não significa que quem não pagava imposto, passará a pagar. Há a proposta do ministro Afif Domingos [da Secretaria da Micro e Pequena Empresa] de reduzir impostos para uma certa faixa. Haverá queda de receita. Será suprida com alta de tributação sobre as empresas acima desse limite?
*Robson Braga de Andrade é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
Entrevista publicada nesta sexta-feira (14) na coluna Mercado Aberto, do jornal Folha de S. Paulo
Fonte: Portal da Indústria (CNI)