Postado em 18/06/2021 Amazônia e o complexo de vira-lata
18/06/2021 10:23
Fonte: Brasil Amazônia Agora
“Fomos nós que fizemos
tudo para sermos esquecidos
apesar desta cara de pidão, ou
de frustração, que permanece
em cada um de nós, patologicamente alcançados pela
síndrome do vira-lata”.
Por Alfredo Lopes e Estevão
Monteiro de Paula (*)
Por que tanta apatia diante das negativas aos direitos legítimos de nossas reivindicações junto ao poder
constituído? Pior do que
isso, por que aprendemos a
acolher passivamente respostas evasivas a demandas tão
prosaicas, como o respeito à
segurança jurídica de nosso
programa de desenvolvimento regional? E mais grave
ainda: de tanto ser repetida
esta rotina, qual o sentido
de conferir-lhe status de
naturalidade? Faz parte de
nossa sina esse conformismo
transformado em resignação?
Nelson Rodrigues chamava
isso de complexo de vira-lata, que teria iniciado com a
derrota por 0x1, diante do
Uruguai na disputa da Copa
do Mundo em 1959, quando
foi inaugurado o Estádio do
Maracanã. Pedíamos a vitória e recebemos de volta a
frustração. Aqui, no atoleiro
da integração, pedimos respeito e recebemos em troca
o descaso, o esquecimento e
a exclusão.
O CBA e a BR-319
Podemos ilustrar esta
comparação com dois exemplos, dentro de uma lista razoável de pedidos legítimos
e historicamente frustrados.
Referimos à estrutura de
funcionamento do Centro de
Biotecnologia da Amazônia,
o CBA, e a recuperação da
BR-319. Todos os superintendentes da Suframa que
ocuparam a cadeira, neste século XXI, se juntaram à classe
política local, instituições de
pesquisa e desenvolvimento,
entidades de classe da indústria, comércio e serviços, jovens que perambulam pela
Amazônia a procura da dignidade perdida com os baixos
índices de desenvolvimento
da região, pediram juntos ou
divididos o CNPJ do CBA e
a recuperação da BR-319. O
que recebemos em troca?
O sonho não acabou
A demanda tem sido a
mesma, simples e justa: o
funcionamento efetivo da
instituição que deveria cumprir o velho sonho de tantas
gerações de transformação
da biodiversidade amazônica em prosperidade para
sua gente. Nada mais do
que isso. Mesmo assim, são
anunciadas e frustradas medidas de impacto, promessas
românticas e eleitoreiras de
que “daqui para frente tudo
vai ser diferente”. Até aqui
não foi. E pasmem: em breve
teremos o evento coerente
e frustrante com essa procrastinação crônica, com todo
respeito, é a realização, neste
mês de julho, uma rodada
internacional de negócios da
bioeconomia, com “apoio do CBA”, que não tem o que
mostrar. Seria cômico se não
fosse trágico.
Alhos são diferentes dos
bugalhos
Como explicar para um
pesquisador do Instituto
Butantã, ou de qualquer
universidade do continente,
ou mesmo de um investidor
europeu interessado nas fibras poderosas do curauá,
que esta iniciativa da Feira
tenha alguma conexão com
a sua demanda. As portas
estão fechadas para a mais
simples investigação laboratorial sobre a viabilidade
fabril de qualquer bioativo
da floresta.Por uma razão
muito simples, o CBA não
existe. Alhos são diferentes
dos bugalhos.
Cantiga para não morrer
Poderíamos dizer que o
CBA, rigorosamente, é um
gnomo institucionalizado em
estado terminal. Ou um ser
vivo que, por descrédito, descaso ou rancor, não tem condições de sobreviver. Ninguém se compromete com
isso, verdadeiramente. Aplica-se a essa fatídica iniciativa
o alerta poético de Ferreira
Gullar, em Cantiga para não
morrer – não deixe de ler – de
onde se pode inferir um fato:
o que mata o homem não é
a idade, é o esquecimento.
E como esta instituição, ao
longo do tempo, transformou-se em pouco tempo
numa lamentável recordação
do que nós poderíamos ter sido, tenhamos certeza: essa
responsabilidade cabe exclusivamente a nós. É ridículo
seguir apontado o dedo na
direção do Ministério X,Y, Z
deste governo ou de todos
os outros que o procederam.
Fomos nós que fizemos tudo
para sermos esquecidos apesar desta cara de pidão, ou
de frustração, que permanece
em cada um de nós, patologicamente alcançados pela
síndrome do vira-lata. E o
que é mais triste, sem saber
dizer se nós nos contentamos
com restos de pele ou reles
ração de segunda categoria.
Mergulho interdisciplinar
O mesmo se aplicará à
recuperação da rodovia BR319? Se dermos trela ao complexo canino maldito com
certeza se aplicará. Antes
da instalação da pandemia,
janeiro de 2020, entretanto
– e isso é uma excelente notícia – as entidades de ensino, pesquisa e extensão de
Manaus, sob a coordenação
do INPA, recrutaram uma
equipe de cientistas e técnicos
que iriam/e ainda vão fazer
uma imersão nos problemas
mais urgentes que a reconstrução da rodovia oferece.
Muitos parceiros de outros
estados e até outros países se
ofereceram voluntariamente para o desafio que nada
mais é do que mapear espécies de madeiras regionais
para construção de pontes,
mapeamento geológico e geomorfológico dos gargalos
estruturais. Um mergulho interdisciplinar e multi-institucional. Uma iniciativa que
viralizou um sentimento dos
mais nobres entre os heróis
de nossa discreta resistência:
a certeza de que nós podemos. Sim, nós podemos!!!
Proibicionismo vesgo
Não faz sentido pontificar
a inviabilidade estrutural da
estrada, muito menos invocar os riscos de depredação/
destruição da floresta, se nós
já fizemos coisas do arco da
velha na floresta. Instituições
como o INPA, que tem 70
anos de pesquisa, sabe tudo
de Amazônia, padecem de
recursos para transformar
esse saber em produtos e
serviços. A UFAM, que é a
primeira instituição universitária do país, corre o risco
do esquecimento fúnebre.
A Embrapa Amazônia Ocidental e vizinhas, tem um
cardápio de soluções para
empinar a curica da obstinação. Por que não empina?
E mais recentemente a UEA,
paga integralmente pela indústria, começa a mostrar as
boas garras em conexão com
seu mantenedor. O mergulho
desta missão desaforada vai
consolidar informações que
tornarão irreversível a conjugação do verbo construir,
manter e fiscalizar o traçado
da rodovia Br-319 e sua utilização pela tribo. O proibicionismo é vesgo e burro.
Segurança Made in ZFM
E como se deu a proteção
da BR 174, que liga Manaus ao Caribe, onde não houve ensaio qualquer de devastação? Ora, perguntem
às etnias Waimiri-Atroari.
Eles sabem como fazer. Pois
bem, assim como eles, por
que não podemos garantir
a saúde da floresta, se nós
também sabemos fazê-lo?
Não podemos esquecer da
existência do Sipam-Sivam Sistema de proteção
e vigilância da Amazônia,
adquirido há mais de duas
décadas pelo governo brasileiro para vigiar e proteger a Mata. Com estudos
adaptados à demanda de
proteção da BR-319, podemos sim desenhar, com
tecnologia, feita na tribo
Manaó, Made in ZFM, isso
mesmo na Zona Franca de
Manaus. Basta o governo
do estado ou as entidades
de classe da indústria tecnicamente demandarem um
sistema de vigilância, para
monitorar, em tempo real
e integral, toda a extensão
da estrada. Firmada essa
plataforma e assumida pelo
órgão legalmente responsável – a BR-319 é federal – só
teremos desmatamento se
as autoridades constituídas
assim determinarem ou se,
por um surto de demência,
continuarmos a fomentar
o maldito complexo de vira-lata.
(*) Alfredo é editor-geral
do portal BrasilAmazoniaAgora e Estevao Monteiro de
Paulo, PhD pela Universidade
do Tenesse, é pesquisador
sênior do INPA.
*esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br