Combustíveis fósseis e desmatamento podem destruir a Amazônia, diz Paulo Artaxo

06/11/2020 13:30

Um dos mais respeitados
cientistas brasileiros, Paulo Eduardo Artaxo Netto é um
dos pesquisadores mais citados pelas mídias científicas
e sociais quando o assunto é
Mudanças Climáticas e Amazônia, suas especialidades. É
formado em Física pela Universidade de São Paulo, com
mestrado em Física Nuclear
pela USP e doutorado em Física Atmosférica pela USP. Fez
parte de equipes na NASA,
Universidade de Antuérpia
(Bélgica), Universidade de
Lund (Suécia) e Universidade de Harvard (EUA). Atualmente, é professor titular
do Departamento de Física
Aplicada do Instituto de Física da USP. Com certeza,
é um dos quatro cientistas
brasileiros mais influentes do
mundo. Sempre disposto a
debater Amazônia, concedeu
entrevista exclusiva ao portal
Brasil Amazônia agora. Confira!

—- Por Alfredo Lopes—-

1. Follow Up está
vivenciando a politização,
no pior sentido da política,
da questão amazônica. São
claros os interesses em
jogo. O que isso representa
para a região e para o
clima?

Paulo Artaxo – Os interesses de alguns ruralistas e do
lado “destruidor”do agronegócio são obviamente predominantes hoje na política
de ocupação da Amazônia.
Desmatamento a qualquer
custo e ocupação ilegal de
terras públicas e indígenas
são as estratégias adotadas
hoje.

Isso representa que a
Amazônia está avançando
para atividades ilegais como
garimpos ilegais e grilagem
de terras de modo acelerado. Isso certamente afasta
empresários que atuam na
legalidade e possam dar um
futuro para a economia da
região amazônica. O impacto
negativo local do desmatamento é muito grande, pois
não traz benefícios às populações locais e incentiva a ilegalidade. No caso do impacto
global, esta atividade acelera
as mudanças climáticas globais, que já entraram em fase
de emergência.

2. FUp – Bioeconomia virou
uma panaceia para todos os
males da política ambiental
vigente. Que consequências
isso deverá trazer para
o fator socioambiental
amazônico?

P.A. – Não faço parte do
time que coloca a não definida Bioeconomia como a solução máxima para a
Amazônia. A região é tão
grande e diversa que irá exigir estratégias diferenciadas
para cada sub região amazônica. O que pode ser uma
boa estratégia no Acre, pode
não funcionar no Pará ou no
Mato Grosso. Não acredito
em uma única rota de desenvolvimento, mas temos
que encontrar soluções locais para cada parte desta
vasta região. A exploração
econômica da imensa biodiversidade pode ser uma
das novas atividades a serem
implementadas diferencialmente para cada região da
Amazônia. Mas acho que
não deve ser vista como a
única e nem como a mais
importante no futuro próximo na Amazônia.

3. FUp – Além do
contigenciamento das
verbas para C&T&I, a
Ciência não escapou do
maniqueísmo dominante. O
que significará para o país,
no médio e longo prazo,
esse modo de conceber o
papel da Ciência?

P.A.- Governos de extrema direita usam a ciência quando lhes interessa e
rechaçam a ciência quando
suas conclusões não vão de encontro a seus interesses
econômicos, religiosos ou sociais. É um péssimo uso da
Ciência, e um desrespeito à
sociedade. No médio e longo
prazo, espero que possamos
voltar a ter governos civilizados que governem voltados
aos interesses da população
e não de acordo com interesses de ruralistas, sistema
financeiro ou milícias. Acredito que o Brasil vai voltar
à civilidade como governo.

4. FUp – O Acordo de
Paris, costurado a duras
penas em 2015, teve a
presença protagonista
do Brasil na questão
climática. Hoje somos
motivo de escárnio no
debate internacional. Como
poderíamos reverter esse
estigma?

P.A. – Já explicitei minha
convicção de que este governo não vai estar presente
quando o Acordo de Paris
for realmente negociado,
que deverá ocorrer durante
o próximo governo brasileiro. A renegociação com
metas vinculantes deveria
ter iniciado neste ano, mas
estes planos foram adiados
por causa da pandemia.
Muitos países como o Japão,
Nova Zelândia e Inglaterra, além da União Européia, já
colocaram em leis em seus
países a descarbonização de
suas economias nos horizontes de 2030 a 2050. A China
tem um plano ambicioso de
descarbonizar a economia
em 2060. O Brasil tem como
meta zerar o desmatamento
ilegal em 2025, e reduzir suas
emissões em 32% em 2030,
entre outras metas. Com a
aceleração do desmatamento
da Amazônia no atual governo, não iremos cumprir
nossos compromissos e metas, e a pressão internacional
sobre o Brasil vai aumentar.

5 FUp. – Aqui lhe pediria
para fazer considerações
adicionais daquilo que
você considera relevante/
preocupante com relação
ao futuro do planeta?

P.A. – Desmatamento de
florestas tropicais corresponde a 13% do total de
emissão de gases de efeito
estufa enquanto combustí-
veis fósseis emitem 87% do
total. Nosso planeta está caminhando a passos largos
para um aumento global de
temperatura de 3.5 a 4 graus
até 2050. Isso irá afetar fortemente a economia mundial,
a produção de alimentos e
fortes migrações irão desestabilizar o frágil equilíbrio
mundial. As desigualdades
certamente aumentarão significativamente entre os paí-
ses e dentro dos países. Na
questão amazônica, é importante salientar que a Ciência
cada vez mais explicita que
a floresta pode sair de sua
condição de funcionamento
ótimo se a temperatura mé-
dia global aumentar 4 graus
e a chuva na Amazônia diminuir 30%, como previsto
nos modelos climáticos. Isso
é importante, pois mesmo
se zerarmos o desmatamento, se continuar a emissão
de mais de 40 bilhões de
toneladas de CO2 por ano,
pela queima de combustíveis
fósseis (87% do total de emissões) principalmente pelos
países desenvolvidos, a floresta em grande área não terá
condições de sobrevivência
e perderá carbono para atmosfera, agravando o efeito estufa. Repito: A Floresta
pode perder sua capacidade
de se manter como floresta tropical úmida, mesmo
que o Brasil consiga zerar
o desmatamento. Portanto,
reduzir a queima de combustíveis fósseis é tão (a ou mais)
importante quanto zerar o
desmatamento de florestas
tropicais.






Warning: Trying to access array offset on value of type bool in /home/storage/a/0d/d7/cieam1/public_html/wp-content/plugins/bridge-core/modules/shortcodes/shortcode-elements/_social-share/templates/social-share.php on line 108