Bikes elétricas ganham força e frota supera 7.000



14/12/2022

O uso de bicicletas elétricas para entregas no
Brasil ganhou força nos
últimos dois anos, puxado
por iniciativas de duas empresas de perfis distintos:
a centenária estatal.

Correios e o iFood, aplicativo
de entregas criado na década passada. O modo em
que as bikes são oferecidas
aos colaboradores também
é bem diferente.
Em novembro deste ano,
os Correios fizeram um
pregão para comprar 5.946
bicicletas elétricas com baú,
que serão entregues a partir de março de 2023. Com
isso, a empresa espera ter
a maior frota deste tipo de
veículo no país.

“O uso da nova bicicleta otimiza o tempo na distribuição, traz conforto e
praticidade para os condutores e, sobretudo, colabora para a sustentabilidade
das operações”, disseram
os Correios, em nota.
A estatal faz testes com
as elétricas desde o ano
passado. Houve um piloto em Brasília (DF) e outro
em Praia Grande (SP), com
cerca de 30 bikes cada um.
Os modelos foram aprimorados a partir das sugestões dos carteiros, que
passarão a usá-las para
fazer as entregas do dia a
dia. Cada unidade tem um
baú e consegue levar 20 kg
de carga. A autonomia é de
30 km por recarga, podendo chegar a 45 km.
Já no iFood, as bicicletas
elétricas são alugadas aos
entregadores cadastrados na
plataforma, que atende pedidos de comida, compras de
supermercado e outros itens.

O programa começou
em 2020 e soma 7 milhões
de entregas feitas, 18 mil
entregadores cadastrados,
2.500 bicicletas e atuação em
seis cidades: São Paulo, Rio
de Janeiro, Salvador, Recife,
Porto Alegre e Brasília.

“Uma boa parte dos
pedidos são em raios de
entrega curtos, e não faz
sentido usar moto”, afirma
Fernando Martins, diretor de logística do iFood.
As entregas de bicicleta
são feitas em distâncias de
até 5 km, dependendo das
condições do terreno.
Martins conta que os
usuários geralmente são
mais jovens que os de
moto e têm entre 18 e 24
anos. “Boa parte destes entregadores está usando a
plataforma para gerar sua
primeira renda. Alguns
estudam e fazem um complemento de renda nas horas vagas”, diz.

“Com esta bicicleta aqui,
as ladeiras parecem rua
reta”, elogia David Anastasia, 40. Ele está no programa desde o início e testou
todos os modelos já usados.
Anastasia conversou
com a Folha de S.Paulo em
uma das sedes do projeto,
um galpão com centenas
de bicicletas na rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros.


Ali, os entregadores retiram e devolvem as bikes. Cada
empréstimo custa entre R$
1,99 e R$ 3,98, por quatro
horas. Também é preciso
pagar uma taxa semanal de
R$ 32, no plano completo.
No começo, as bikes usadas pelo programa eram
iguais às do sistema Bike
Itaú. “Elas eram boas, mas
quando a bateria acabava,
ficava muito pesado. Teve
entregador que até machucou o tendão, porque ela
fica ultrapesada”, lembra.
Depois, veio um modelo
mais leve, mas com outras
falhas. “Esta solta a corrente toda hora. A gente
chegava nos clientes com
a mão suja de graxa. E o
pneu era fino, estourava. A
gente ficava na mão”, diz.

Já a geração atual, adotada há alguns meses,
agrada o entregador: é
leve, tem pneus robustos e
bateria melhor.
Questionada sobre as
falhas apontadas, a Tembici, que fornece os veículos
para o iFood, disse em nota
apenas que o programa
considera “todas as necessidades do entregador”.
Cada entrega paga geralmente R$ 6 para o ciclista. O iFood coloca estímulos, como dar mais R$ 3 ou
R$ 4 por entrega se o trabalhador bater uma meta
ou atuar em momentos de
alta demanda. “Eles fazem
promoção quando tá chovendo, quando tá aquele
frio de lascar”, conta Anastasia. “Dá para ganhar
bem, fazer uma média de
R$ 80 a R$ 100 por dia. Até
R$ 150 se o cara esticar”.

Questionado sobre o
fato de a empresa alugar
um equipamento de trabalho aos seus colaboradores,
o sindicalista Gilberto Santos disse não ver problema.

“O programa é positivo
porque passa a ser uma ferramenta a mais para o trabalhador ter acesso a uma
ferramenta de trabalho e
de termos mais pessoas
no mercado das entregas”,
avalia ele, que preside o
SindimotoSP (Sindicato ciclistas, Ciclistas e Moto-
-Taxistas de São Paulo).
“Falta ainda a gente acertar a remuneração
dentro de um acordo coletivo, para que os trabalhadores possam trabalhar de
uma maneira mais digna”,
prossegue Santos.
Sobre a questão trabalhista, o iFood disse que
“todos os entregadores
têm autonomia e flexibilidade para realização do
trabalho e são livres para
escolher o modal e o tempo de dedicação a uma ou
mais plataformas para geração de ganhos”.

A adoção de bikes elétricas são parte da estratégia de Correios e iFood
para reduzir a poluição
gerada pelas entregas.
Além de não sujar o ar, os
modelos também são silenciosos, o que ajuda a reduzir o barulho na cidade.

É
comum ver motos com escapamento aberto fazendo
muito ruído na aceleração.
Daniel Guth, diretor da
Aliança Bike (Associação
Brasileira do Setor de Bicicletas), aponta que o custo
das elétricas vem diminuindo nos últimos anos, especialmente por reduções de
carga tributária, e que iniciativas empresariais ajudam a baixar os preços.
“Quanto mais tiver demanda, mais barata ela vai
ficar. Hoje tem bikes elétricas de entrada, com tecnologia razoável, que partem
de R$ 3.000”, avalia.

Fonte: JCAM