Hermanitos, por uma nova vida



04/03/2022

EVALDO FERREIRA

Eles são tantos, chegando quase diariamente
a Manaus, que apenas
se estima a quantidade
de homens, mulheres e crianças venezuelanos fugidos do
regime ditatorial de Nicolás
Maduro, presidente da Venezuela. Dados da ACNUR (Alto-Comissariado das Nações
Unidas para os Refugiados)
estimam que mais de 200 mil
venezuelanos estão em Manaus, hoje.
Em 2014, a Venezuela entrou em recessão econômica
e, em 2015, a taxa de inflação
havia atingido o valor mais
elevado da história do país.
Começou aí o êxodo do povo
venezuelano, principalmente
para o Brasil, via Roraima, depois Amazonas e o resto do
país, aumentando o número de
refugiados à medida que a situação do país vizinho piorava.
Em 2019 os amigos Túlio
Duarte, Patrícia Pilatti e Anderson Mattos fundaram a Hermanitos, OSC (Organização da
Sociedade Civil) cujo objetivo
era oferecer acolhimento e contribuir na inserção de refugiados e migrantes venezuelanos
no mercado de trabalho em
Manaus.


“O Hermanitos já impactou
mais de 15 mil pessoas em seus
três anos de existência. Atualmente possui mais de 20 colaboradores diretos, brasileiros
e venezuelanos, que formam
uma equipe multicultural e
multidisciplinar, assim como
dezenas de voluntários. Possui
quatro pilares: Inserção laboral,
Apoio ao empreendedorismo,
Qualificação, e Proteção”, falou Túlio, cofundador e diretor-presidente da Hermanitos
com mais de 15 anos de experiência em P&D (Pesquisa e
Desenvolvimento) de soluções
tecnológicas avançadas.
O início da Hermanitos se
deu a partir de visitas a abrigos
em 2018. Buscando se aproximar e acolher os refugiados
venezuelanos, inicialmente
levando alimentos, os amigos
ouviram suas histórias.


“Quando indagados sobre o
que mais tinham necessidade,
eram uníssonos em apontar a
oportunidade de um trabalho
para recomeçarem suas vidas.
Assim as ações iniciaram com a elaboração de currículos e
busca de oportunidades para
inserção no mercado de trabalho”, lembrou.
História de vida
Três anos depois, entre as
ações realizadas, destaque para
os cursos de idiomas, sessões
psicossociais, preparação para
entrevistas de emprego, oficinas e jornadas de desenvolvimento profissional, captação de
vagas, projetos de integração
comunitária e de saúde e de incentivo ao empreendedorismo.
Ao todo, a Hermanitos já
fez contato com mais de 200
empresas e instituições para
sensibilizar sobre a importância da contratação de venezuelanos, indicando profissionais
do seu banco de talentos e auxiliando jovens para o primeiro
emprego ou estágio. Também
possui uma plataforma que incentiva atividades nesse sentido: www.hermanitos.org.br.

A Hermanitos apoia 55
empreendedores venezuelanos
que atuam nas áreas de beleza, gastronomia, confecções e
eventos. Esses empreendedores receberam
cursos de qualificação e assessoria para
fortalecimento do negócio
e dos processos produtivos, com diversas ações
e até doações
de equipa –
mentos para
o incentivo e
melhoria do
empreendimento.


“Destaco
a história de
Jennifer Olaizola Varela, empresária bem sucedida, proprietária de um estúdio de
beleza, na Venezuela. Vivendo
na pele a crise pela qual o país
atravessa, decidiu deixá-lo com
sua família para recomeçar em
Manaus. Através da Hermanitos, teve oportunidade de atuar como professora na área de
beleza e estética no Cetam
(Centro de
Educação Tecnológica do
Amazonas),
em seguida
empreendeu
na área de
unhas e hoje
é uma referência na cidade.
É parceira da
Hermanitos,
oferecendo
por meio de
sua empresa, cursos de
qualificação”,
contou.

Profissionais qualificados

A Hermanitos possui um
cadastro de mais de quatro
mil famílias de venezuelanos
e também realiza ações de proteção visando atender pessoas
e famílias em situação de vulnerabilidade, como doações
de cestas básicas, até agora
aproximadamente nove mil,
apoio ao acesso à rede pública
de saúde e também mutirões
de saúde em sua sede com vacinação, consultas e palestras
de orientação. Apoia ainda na
realização de matrículas em
escolas, orienta e dá suporte
para retirada de documentos.
“A Hermanitos foi criada
a partir do olhar de seus fundadores para a situação dos
refugiados venezuelanos que
chegavam a Manaus, então
são o nosso público prioritário,
mas já tivemos oportunidade
de apoiar cubanos e colombianos”, explicou.

Sobre as pessoas falarem
que os haitianos que chegam
a Manaus, logo estão trabalhando, vendendo qualquer
produto nas ruas, enquanto os
venezuelanos só sabem pedir
ajuda, Túlio explicou.
“Em 2018, uma população não indígena começou a
chamar atenção pelo aumento
repentino de sua presença nos
semáforos, com placas de papelão buscando um trabalho
e apresentando suas qualificações, pedindo uma oportunidade de trabalho. Aproximando-
-se dessas pessoas, percebemos
entre elas: médicos, advogados, engenheiros, professores,
dentre outros”, informou.

“Também são muitos os venezuelanos que buscam alternativas para geração de renda
com a venda de água, banana
frita, bolos, trufas e outros
produtos. Assim como outros
estrangeiros que contribuíram com o desenvolvimento
da cidade como portugueses,
sírio-libaneses, japoneses, que
atuaram significamente para o
desenvolvimento de Manaus,
agora são os venezuelanos que
estão ajudando a escrever a
nossa história”, finalizou.

Fonte: JCAM