Postado em 23/06/2020 Indústria para de piorar
23/06/2020
Fonte: Jornal do Commercio
Marco Dassori
O desempenho da indústria parou de
piorar em maio, sinalizando a possibilidade de que abril pode ter sido
o fundo do poço da crise da covid-19. A Sondagem Industrial
da CNI (Confederação Nacional
da Indústria) traz dados comparativamente melhores de desempenho, embora a atividade e as
intenções de investimento ainda
estejam em retração. De âmbito nacional, a pesquisa aponta
desempenho abaixo da média
nos segmentos que carreiam o
PIM, embora suas projeções de
demanda sejam melhores.
Em paralelo, as expectativas dos
empresários
registraram
melhora significativa, segundo o Índice
de Confiança
da Indústria.
O indicador
da Fundação
Getúlio Vargas avançou 15,2 pontos, na
comparação da prévia de junho com o dado consolidado de
maio, mas ainda segue na zona
de insatisfação – 76,6 pontos,
em uma escala de zero a 200.
Caso a prévia se confirme, será
a maior alta mensal da história
do levantamento da FGV.
Realizada entre 1º e 10 de
junho, com 1.859 empresas, a
pesquisa da CNI mostra que a
produção e o emprego sofreram novas quedas entre abril
e maio, ainda sob os efeitos da
pandemia, embora o tombo tenha sido menor. O índice de
evolução da produção subiu
de 26 pontos para 43,1 pontos.
Pela metodologia da pesquisa
da CNI, o índice varia de 0 a
100 pontos e só há crescimento
quando os dados são superiores
à marca dos 50 pontos.
Na mesma comparação, o
número de empregados atingiu 42 pontos –contra os 38,2
pontos anteriores. O uso da capacidade instalada da indústria
cresceu seis pontos percentuais
e alcançou 55% –embora ainda
se encontre 12 p.p. de 12 meses
atrás e tenha sido o segundo
pior número da série histórica
iniciada em 2011. O índice de
evolução dos estoques ficou em
46,2 pontos, apontando para
uma redução significativa.
Majoritários no Polo Industrial de Manaus, os segmentos
de “equipamentos de informática e produto eletrônicos”
e de “outros equipamentos de
transporte” (o polo de duas
rodas) pontuaram abaixo da
média nacional da indústria
de transformação nos quesitos
de produção (34,8 e 42,6 pontos, respectivamente), emprego
(37,1 e 41,2 pontos) e no nível de
uso da capacidade instalada
(19,7% e 25%).
De uma
forma geral,
os melhores
números da
indústria ficaram em subsetores
minoritários
ou mesmo ausentes do PIM.
Biocombustíveis; produtos de
limpeza, perfumaria e higiene
pessoal; e produtos farmoquímicos e farmacêuticos produziram mais e demitiram menos
em maio, além elevar o uso da
capacidade instalada. Na outra
ponta, as divisões de impressão
e reprodução de gravações; de
couros e artefatos de couro; de
calçados e suas partes; e de vestuário e acessórios amargaram
os piores desempenhos.
Mais confiança
A sondagem da CNI mostra
que o pessimismo no setor caiu e
aparece de forma menos intensa
e disseminada do que nos dois
meses anteriores. A divisão de
equipamentos de informática e
eletrônicos (52,3 pontos) aparece
com números acima da média
da indústria de transformação
(48,6), em termos de expectativa de demanda. O mesmo não
pode ser dito do segmento de
duas rodas (41,2). Os empresários, no entanto, seguem projetando queda na procura nos
próximos seis meses –assim
como nas exportações, compras
de matérias-primas e número de
empregados.
Em sintonia, a FGV mostra
que o aumento na confiança é resultado da melhora da avaliação
dos empresários em relação ao
presente e, principalmente, para os próximos três e seis meses.
O Índice de Expectativas (75,5)
subiu 20,6 pontos, recuperando mais da metade da queda
observada em abril. Já o Índice
de Situação Atual (77,8) cresceu
9,2 pontos, o equivalente a um
terço da perda de abril. O Nível
de Utilização da Capacidade
Instalada da Indústria, por sua vez, aumentou 5,9 pontos percentuais e chegou a 66,2%.
Esboço de reação
No entendimento do presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio
Silva, os números da pesquisa
da Confederação Nacional Indústria mostram que o setor em geral, e o PIM em particular,
começa a esboçar reação à crise da covid-19, embora ainda
enfrente “muitas dificuldades”
para superar os impactos negativos da pandemia na atividade
econômica nacional.
“Os indicadores mostram
que o desempenho foi melhor
do que o de abril, com aumento
da capacidade instalada, embora ainda muito abaixo dos
níveis anteriores a pandemia.
Há uma boa expectativa de que a
demanda comece a dar sinais de
aquecimento. O ânimo empresarial melhorou sensivelmente
apesar do índice de intenção de
investir continuar baixo, com
oito pontos abaixo de sua média
histórica. Para o corrente mês
espera-se melhora em todos os
setores”, afiançou.
Gargalo no Centro-Sul
Já o vice-presidente do Sinaees (Sindicato da Indústria de
Aparelhos Elétricos, Eletrônicos
e Similares de Manaus), Celso
Piacentini, avalia que ainda é
muito cedo para o PIM comemorar uma possível recuperação
sustentada e que o setor não
está livre de sofrer retrocessos. O dirigente observa que,
enquanto Manaus apresenta
números declinantes de novos
casos, internações e mortes por
covid-19, o mesmo não pode ser
dito de cidades do Centro-Sul do
país, onde se concentra a maior
parte do mercado consumidor
do Polo.
“Fica difícil de prever, porque muitas cidades tiveram
um repique e estão fechando
de novo. Posso dizer que, de
uma forma geral, a indústria de
bens de informática até vendeu
que vendeu bem nesse período,
já que muita gente teve que ficar
trabalhando e se comunicando
de casa. Já os fabricantes de
condicionadores perderam um
pico de vendas, de março e abril,
que não será recuperado nos
meses de inverno. Mas, em um
panorama de crise, dificilmente alguém vai querer comprar
eletroeletrônicos, como TVs. Infelizmente, somos o primeiro
segmento a parar e o último a
voltar”, encerrou.