Postado em 31/01/2020 Zona Franca de Manaus: tropeço em Davos – artigo
31/01/2020
Folha de S. Paulo
Eduardo Braga
Assim como a mentira, críticas infundadas têm pernas curtas e não se
sustentam. Não é à toa que o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes,
acabou tropeçando nos falsos argumentos disparados contra a Zona Franca
de Manaus (ZFM).
O ministro deixou claro o papel estratégico da ZFM ao declarar, em Davos, que o pior inimigo do meio
ambiente é a pobreza. É só usar o raciocínio lógico, herdado do
sábio Aristóteles: se a melhor maneira de proteger o meio ambiente é
combater a pobreza, e se a ZFM é um mecanismo exemplar de combate à
pobreza, a conclusão é que o modelo de incentivos tributários implantado
em Manaus é uma excelente opção de proteção ambiental. Quem ganha é o
Brasil inteiro.
Ao tentar alvejar a ZFM, a equipe econômica não coloca em risco um simples
sistema de subsídios fiscais — devidamente protegidos pela lei maior do
país, a Constituição. A ameaça é dirigida a uma cadeia econômica complexa,
com centenas de empresas que levam trabalho e desenvolvimento
a brasileiros antes esquecidos e abandonados na Amazônia, sem de refrigerantes instaladas na região. A Dolly já avisou que pode tomar o
mesmo caminho. Não é para menos. Atraídas para Manaus pela
compensação de uma alíquota de IPI de 40%, décadas atrás, as
empresas de concentrados foram tendo suas vantagens cortadas aos poucos.
Em 2018, com a alíquota já em 20%, o então presidente Michel Temer
(MDB) determinou a redução gradual
do IPI para 4%, até o início de 2020.
O estrago do tiroteio insano contra os incentivos à ZFM vai ainda mais longe. Com a política de desmonte do Polo Industrial de Manaus, qual seria a opção para quase meio milhão de brasileiros empregados direta ou indiretamente na zona franca? A resposta, mais uma vez, está na declaração de Guedes, em Davos: eles vão destruir a floresta porque precisam comer.
A Pepsi Cola foi a primeira a fechar as portas na zona franca, depois da redução dos créditos tributários para empresas de concentrados de refrigerantes instaladas na região. A Dolly já avisou que pode tomar o mesmo caminho. Não é para menos. Atraídas para Manaus pela compensação de uma alíquota de 40%, décadas atrás, as empresas de concentrados foram tendo suas vantagens cortadas aos poucos. Em 2018, com a alíquota já em 20%, o então presidente Michel Temer (MDB) determinou a redução gradual do IPI para 4%, até o início de 2020.
O jogo de pressões políticas, em que estivemos particularmente
empenhados, acabou aliviando as perdas do setor nos últimos meses. Mas o
prejuízo continua sendo bilionário. Pior: o anúncio de que a alíquota, hoje
em 8%, cairá para 4% até 2023 só adia em três anos a completa asfixia de
uma cadeia produtiva que gera mais de 7.000 empregos no Amazonas e é
estratégica no incentivo à produção sustentável de guaraná, cana-de-açúcar e
outras culturas no interior do estado.
Mais do que isso, a insegurança jurídica criada pelo vaivém das alíquotas do
IPI dos concentrados semeia a desconfiança em todas as outras cadeias
produtivas da ZFM, espantando investidores e freando uma política de
desenvolvimento e proteção ambiental cujo sucesso é reconhecido pela
Organização Mundial de Comércio.
Junte-se aí o desgaste político e a quebra de confiança dos amazonenses com
os principais mandatários do país. Foi assim com o ex-presidente Temer, que
rompeu o acordo com os fabricantes de bebidas não alcoólicas para atender
às ameaças dos caminhoneiros. Foi assim com o presidente Jair
Bolsonaro, que ignorou os compromissos
assumidos com o Amazonas para atender ao empresariado paulista.
Quem aponta privilégios tributários para a ZFM desconsidera a longa
história de descaso para com a região amazônica e as dificuldades de
logística no nosso estado. Por ignorância ou má-fé, também não leva em
conta o retorno ambiental garantido pelo modelo da zona franca.
Jornalismo que fiscaliza o poder público e veicula notícias úteis e inspiradoras.
Num tempo em que a arrogância e a falta de diálogo costumam falar mais
alto que o interesse público, vale lembrar a lição de outro filósofo grego. “O
início da sabedoria é a admissão da própria ignorância”, ensinava Sócrates. A
Zona Franca de Manaus está aberta a todos que queiram vencer a ignorância
e conhecer de perto um dos modelos de desenvolvimento regional mais bem sucedidos do mundo.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/01/zona-franca-de-manaus-tropeco-em-davos.shtml