“Ou mudamos a postura ou seremos condenados a fracassar entre cinco e dez anos”

07/05/2018

Entrevista divulgada pelo Blog do Mário Adolfo

Segunda geração da família empresarial Bemol-Fogás que
teve como fundadores seu pai Samuel e seus tios, Israel e Saul, o
empresário amazonense Jaime Benchimol, 60, gosta de lembrar que em 1960,
no Amazonas, cerca de 10% da população economicamente ativa trabalhava
na indústria e hoje esse número é de cerca de 7%. Embora a população
hoje seja 10 vezes maior que naquela época, em termos proporcionais,
curiosamente havia mais empregos industriais no passado. Não que ele
ache que estávamos melhor no passado ou que seja contra o modelo Zona
Franca de Manaus.

Ao contrário, Jaime acredita é necessário
continuarmos lutando para preservar o modelo atual que gera vendas de
mais de US$25 bilhões e não tem substitutos para ele nos próximos dez
anos. No entanto, observa que é impossível ignorar que uma das
consequências nefastas do modelo ZFM foi o fato de termos perdido a
iniciativa de liderar para conduzir o nosso próprio destino.

– Durante cinco décadas nos limitamos a usufruir das vantagens fiscais da ZFM sem buscar novas alternativas econômicas –, diz.

O
atual presidente do Grupo reconhece que o Polo Industrial de Manaus é
uma indústria limpa que ajudou o estado a conservar 98% da floresta
intacta, mas admite também que esse “é um recorde mundial que está nos
custando caro”.

– Sugiro uma meta para preservar 95% da floresta
liberando assim espaço para maior aproveitamento dos recursos naturais –
aconselha o empresário, alertando que é“imperativo mudar essa postura
com urgência ou seremos condenados a fracassar dentro de cinco a dez
anos”.

Jaime Samuel Benchimol tem 60 anos, estudou no Colégio
Estadual D. Pedro II e cursou Ciências Econômicas na Universidade do
Amazonas em 1975 tendo em 1976 se transferido para a Universidade de
Miami, Flórida, EUA onde se formou em 1978. Em 1980, concluiu o
Mestrado em Administração de empresas (MBA) pela Universidade da
Califórnia, Berkeley, EUA. Iniciou suas atividades profissionais em
1980 como diretor de Benchimol, Irmão e Cia. Ltda. (Bemol) e Sociedade
Fogás Ltda., empresas que preside atualmente. Lecionou Micro-Economia e
Economia Monetária na Universidade do Amazonas de 1981 a 1989.

Sua
gestão no grupo Bemol-Fogás, que atualmente emprega 3.000 funcionários,
tem sido marcada pela continuidade, expansão e aprimoramento do
trabalho pioneiro da primeira geração de fundadores que iniciaram a
organização em 1942. Jaime sustenta que a ética empresarial tem sido um
dos mais importantes valores culturais da organização Bemol-Fogás “que
se orgulha de recolher correta e pontualmente a totalidade dos impostos,
encargos e contribuições devidas, destacando-se há mais de 15 anos
dentre os principais arrecadadores de impostos estaduais e federais da
nossa região”.

CONFIRA A ENTREVISTA

Blog
do Mário Adolfo – Como o senhor analisa o atual processo econômico do
Amazonas? Nós éramos mais felizes no ciclo do extrativismo e não
sabíamos?

Jaime Benchimol – A
ZFM criou um grande ciclo de prosperidade no AM nos últimos 50 anos e
quase todos nós que vivíamos em Manaus tivemos muitas oportunidades para
crescer. Nossa família e nossas empresas foram beneficiárias desse
processo. Como amazonenses devemos ser muito gratos ao Brasil por ter
nos contemplado com as vantagens da ZFM a despeito de continuarmos
isolados do ponto de vista de infraestrutura pela falta de estradas e de
instalações portuárias de qualidade. Contudo durante cinco décadas nos
limitamos a usufruir das vantagens fiscais da ZFM sem buscar novas
alternativas econômicas. Pior ainda, gradualmente abandonamos outras
atividades que tínhamos antes de 1967 como juta e malva, castanha,
borracha, sorva, madeira, óleos essenciais, pesca e peixes ornamentais,
couros e peles e outros produtos extrativistas que eram inclusive
beneficiados e industrializados no Amazonas. Aos poucos essas atividades
foram se tornando pouco atraentes e com elevado grau de risco em razão
das restrições ambientais. Gosto de citar o fato que em 1960 cerca de
10% da população economicamente ativa trabalhava na indústria e hoje
esse número é de cerca de 7%. Embora a população hoje seja 10 vezes
maior que naquela época, em termos proporcionais, curiosamente havia
mais empregos industriais no passado. Isso não significa dizer que
estávamos melhor antes do que agora, mas evidencia que a capacidade de
geração de empregos e criação de renda do modelo industrial atual é
limitada e está se enfraquecendo.

BMA – Foi correto sepultar o extrativismo ou o que tinha que ser feito foi feito e isso “é coisa do passado”?

Jaime Benchimol – Penso
que para que o modelo seja sustentável devemos compreender as nossas
vocações. Turismo, mineração, extrativismo, piscicultura e alguns tipos
de agricultura além das indústrias que possam agregar valor a essas
atividades e fazem parte dessas vocações para as quais podemos ter
vantagens comparativas de longo prazo. Por exemplo, ignorar o potencial
de produção de madeira de qualidade e seus derivados no Amazonas parece
um erro, assim como não me conformo em recebermos um número tão pequeno
de turistas ou de não conseguirmos aprovar atividades de mineração por
questões ambientais. É preciso rever a nossa relação com o meio ambiente
saindo da posição de preservação radical atual para uma que contemple
os interesses das futuras gerações e também da geração de hoje. Nenhuma
das atividades mencionadas acima isoladamente será capaz de substituir o
modelo atual do PIM, que precisa ser conservado com todas as nossas
forças, mas tampouco podemos ignorar o imperativo de mudança e de
atualização do modelo atual.

BMA
– O senhor costuma dizer que a bancada do Amazonas foi “heroica” porque
conseguiu manter a duras penas o modelo da Zona Franca de Manaus. O
senhor acha que esse modelo está desgastado?

Jaime Benchimol – Ao
contrário do que ouço com frequência, julgo que nossos políticos foram
muito competentes em manter o modelo atual em funcionamento e com
razoável competitividade para vender para o mercado brasileiro. Se
considerarmos que temos uma das menores bancadas no congresso nacional,
acho que nos saímos muito bem no cenário político, em parte porque a
indústria da ZFM é uma indústria limpa e ajudou o estado a conservar 98%
da floresta intacta, um recorde mundial que está nos custando caro.
Sugiro uma meta para preservar 95% da floresta liberando assim espaço
para maior aproveitamento dos recursos naturais. O nosso modelo ZFM,
além de gerar empregos tem sido pródigo em gerar impostos estaduais e
federais abundantes o que tem permitido sustentar máquinas públicas
infladas e ineficientes que precisam ser revistas. O Estado tem baixa
vocação para pesquisa e desenvolvimento tecnológico pela falta de
estrutura educacional e científica. Por isso as chances do modelo
industrial se transformar em um modelo de inovação e alta agregação de
valor são pequenas no futuro, na minha opinião. Nesse sentido o modelo
atual está desgastado pela baixa perspectiva de crescimento.

BMA – Com
uma visível redução na oferta de empregos e na produtividade, a Zona
Franca é aquilo que se esperava de um modelo econômico de 50 anos ou
algo saiu errado?

Jaime Benchimol – Essencialmente
ficamos limitados a atrair indústrias que se beneficiam das isenções do
Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto de
Importação (II) e deixamos de trabalhar para criar viabilidade para
outras atividades industriais e de serviços. Na prática fizemos muito
pouco além do que nos foi concedido pelo Decreto Lei 288 que criou a
ZFM. Todos nós, governantes, eleitores, empresários e consumidores somos
responsáveis por essa falta de ação. É imperativo mudar essa postura
com urgência ou seremos condenados a fracassar dentro de cinco a dez
anos. Desperdiçamos o período de maior prosperidade econômica e da maior
entusiasmo empresarial e agora teremos que fazer mudanças com muito
menos recursos. Uma das consequências nefastas do modelo ZFM foi o fato
de termos perdido a iniciativa de liderar para conduzir o nosso próprio
destino.

BMA – O senhor costuma
dizer que as maiores ameaças aos produtos no nosso Polo Industrial de
Manaus (PIM) estão dentro do celular. O que realmente significa isso?

Jaime Benchimol – Sim,
além dos desafios que mencionei anteriormente temos o grave desafio da
obsolescência tecnológica do nosso parque com a convergência das
tecnologias digitais para dentro do telefone celular. Cerca de 50% da
atividade do Polo Industrial de Manaus está concentrada na produção de
televisores, aparelhos de som, vídeo games, calculadoras, máquinas
fotográficas, computadores, notebooks, tablets, GPS etc. Praticamente
todos esses segmentos estão se tornando gradualmente obsoletos e estão
migrando para dentro do smartphones. Pergunte-se, por exemplo, quando
foi a sua última compra de uma máquina fotográfica ou de um notebook?
Mesmo que produzíssemos todos os smartphones vendidos no Brasil (hoje
produzimos pouco mais da metade) isso não seria suficiente para
compensar a perda das demais indústrias especialmente porque o valor
agregado na era digital está muito mais no software, com os Apps, do que
nos hardwares propriamente e praticamente não produzimos softwares
aqui.

BMA – Até
hoje, volta e meia, nossos caciques políticos têm que ir a Brasília
para “salvar a Zona Franca”. Isso até já virou um jargão. Não está na
hora de procurar outra saída econômica para o Estado?

Jaime Benchimol – Penso
que todas as vezes que tivermos que ir a Brasília para buscarmos uma
solução para nossos problemas há algo de errado. O que precisamos é
encontrar nossas próprias soluções aqui mesmo dentro das alternativas
mencionadas e melhorando o ambiente empresarial. Entretanto temos que
continuar lutando para preservar o modelo ZFM atual que gera vendas de
mais de US$25 bilhões e não temos substitutos para ele nos próximos dez
anos.

BMA – Que saídas seriam
estas? O Polo madeireiro, mineral, a biotecnologia, o turismo a
indústria farmacêutica, outros? Analise que caminho o Amazonas terá que
seguir para fugir da eterna dependência da Zona Franca.

Jaime Benchimol – Além
das alternativas mencionadas, vale estudar países como Cingapura que
foi criado apenas em 1965, dois anos antes da ZFM, e que nesse período
se tornou um país de primeiro mundo partindo de uma base de poucos
recursos. Cingapura está 3o ao Norte do equador enquanto nós estamos 3o
ao Sul e assim temos clima e vegetação muito parecidos. Nesses pouco
mais de 50 anos eles fizeram o porto mais eficiente do mundo, criaram
excelentes instituições e uma estrutura governamental eficaz que atraiu
investimentos estrangeiros, construíram um dos melhores jardins
botânicos do mundo, aquário, orquidário, zoológico, parques temáticos,
casinos e outras atrações turísticas. Levaram a sério a educação
bilíngue e a necessidade de uma cultura de disciplina, estudo e trabalho
para obter sucesso. Estudar esse modelo, que abraçou o capitalismo e a
livre iniciativa como ponto de partida, seria um bom começo para
reposicionarmos estrategicamente o Amazonas.

BMA
– O senhor assumiu as empresas da Benchimol & Irmãos com quatro
lojas, em Manaus. Hoje, quantas elas somam e quantos colaboradores o
grupo emprega?

Jaime Benchimol – Sou
parte da segunda geração da família empresarial Bemol-Fogás cujos
fundadores, meu pai Samuel e meus tios Israel e Saul, nos deixaram um
excepcional legado através de empresas com marcas bem posicionadas e
valores empresariais preciosos como integridade, respeito, energia,
economia e melhoria contínua. Com a dedicação e ajuda dos nossos sócios,
diretores mais de 3.300 colaboradores conseguimos multiplicar o número
de lojas e de clientes e nos posicionar como a maior arrecadadora de
impostos no ramo comercial no Amazonas por 20 anos consecutivos. Na
Bemol temos 21 lojas em quatro estados e na Fogás temos hoje mais de
1.300 revendedores em seis estados da Amazônia. Ficamos felizes em
demonstrar que mesmo em um país com tantos impostos e excesso de leis e
normas é possível prosperar cumprindo com nossas obrigações com a
sociedade. Confio que conseguiremos dar continuidade a esse legado
através das próximas gerações no futuro.

BMA – Qual a fórmula para essa expansão, num o país onde a economia oscila a cada mudança política?

Jaime Benchimol –Não
creio que exista uma única fórmula pois há muitas empresas de sucesso
que trilharam caminhos diferentes. No nosso caso atribuo nosso sucesso a
dois fatores essenciais: disciplina no desenho de boas estratégias
empresariais com aceitação de inovações e construção de uma cultura
empresarial que tem a integridade e o respeito como pilares centrais.

BMA
– Do jogo de loteria ao gás de cozinha, passando por eletrodomésticos,
aparelhos eletrônicos e até material escolar. A diversificação de
produtos é o segredo do negócio?

Jaime Benchimol – Se
considerarmos que nosso grupo empresarial tem 75 anos, penso que não
somos muito diversificados. Atuamos essencialmente em dois segmentos
apenas: distribuição do gás liquefeito de petróleo (gás de cozinha) e
varejo de utilidades domésticas. Dentro do varejo, recentemente
ampliamos um pouco o nosso mix de produtos com a inclusão de farmácias,
produtos automotivos e um pouco de material escolar. As loterias ajudam a
tornar as lojas um destino de compras.

BMA – O Grupo Bemol é uma empresa familiar?

Jaime Benchimol – Sim,
somos uma empresa familiar com estruturas de governança em
funcionamento como conselho de administração, conselho de família,
código de ética, acordo societário, etc que convive em harmonia e que
hoje tem 21 sócios, todos descendentes dos irmãos Samuel, Israel e Saul
Benchimol.

BMA – Vez por outra o
senhor é convidado para entrar na política e disputar um cargo onde
possa colocar seu conhecimento de gestor e de economista a serviço do
Amazonas. Que resposta vem dando a esses convites?

Jaime Benchimol – Fico
feliz por ser lembrado com alguma frequência, mas sempre agradeço ao
convite e respondo que não tenho vocação para a política. Minha
principal contribuição à sociedade é através da vida empresarial com a
prestação de bons serviços aos nossos clientes, o pagamento correto dos
impostos, a criação de empregos de qualidade, a realização de novos
investimentos na região e a busca do merecido retorno ao acionistas que,
em última análise, são os que tomam o risco da atividade empresarial.

BMA – Pelos exemplos que temos assistido, ainda é possível ter esperanças em uma saída política para o Brasil?

Jaime Benchimol – O
Brasil passa por um momento difícil em que a esperança que os jovens
tem no futuro está sendo questionada e isso preocupa bastante.
Reclamamos dos políticos, mas continuamos a eleger aqueles que
representam os conceitos que condenamos como o favorecimento, o
empreguismo, as promessas impossíveis de cumprir, o estado grande e
assistencialista etc. É hora de reconhecer que esse modelo promoveu a
estagnação e fracassou em todo o mundo. O modelo que triunfou foi o
modelo capitalista baseado em estados pequenos e eficientes, impostos
baixos, liberdade para empreender e para competir, pouca regulação,
economia aberta para o mundo e para a inovação.






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