Postado em 29/04/2025 Bioeconomia envergonhada
29/04/2025 08:02
MANAUS – Temos uma vergonha relativa por não usar de maneira
responsável, altiva, sustentável e determinada os recursos da Amazônia.
Há uma potencialidade gigante, permeada por uma pobreza a olhos vistos,
um descaso secular e uma destruição ou mal uso dos recursos por todos os
lados. Naturalmente, existe uma forte dependência do sistema econômico
em relação à energia e aos recursos naturais, em todas as atividades.
Os conceitos de Nicholas Georgescu-Roegen, de seu livro de 1971 “The Entropy Law and the Economic Process”
(algo como “A Lei da Entropia e o Processo Econômico”), que associou a
lei da entropia aos sistemas econômicos, criou a base para o conceito de
bioeconomia. Estamos, faz alguns anos, usando o termo bioeconomia na
expectativa que esteja por aí a saída para os recursos substanciais
existentes na Amazônia. Entretanto, pouco de seu PIB está associado a
isto e sequer temos esta medida realizada e avaliada. Quando se
verificam discussões públicas sobre o assunto, fala-se em extração de
minérios, petróleo ou combustíveis, o que provoca impactos e destruição,
com ilusões de sustentabilidade.
A ausência de métricas claras sobre os resultados das políticas
públicas para bioeconomia revela uma distância de um resultado
expressivo ou mesmo de uma intencionalidade real, porque quem não mede,
não administra. Há inúmeras oportunidades de uso sustentável dos
recursos naturais da Amazônia, mas pouco se estimula. Temos mais umas
utopias ou sonhos do que um projeto de Estado ou de Governo. As ações de
governo dos últimos anos parecem mais intenções esparsas do que
projetos que atuem de maneira decidida nesta direção.
A mudança deste cenário será percebida quando instituições como o
INPA retomem a sua importância histórica. Quando as Portarias de
Processos Produtivos Básicos (PPB) do MCTI e MDIC contiverem indústrias
sustentáveis com o uso de recursos da natureza Amazônica. O que temos
hoje é uma espécie de bioeconomia envergonhada.
Precisamos encarar o termo em sua amplitude, para fazer uso
sustentável da natureza Amazônica. Entretanto, não sabemos como fazer
isso e é difícil a coragem de afirmar o desconhecimento que temos sobre a
Amazônia. Todos querem olhar uma ou duas fotos de satélite da Amazônia e
dizer que a conhecem.
Enquanto não tivermos uma métrica expressiva do PIB regional fazendo
uso verdadeiramente sustentável dos recursos naturais, seguiremos a
degradar a floresta, o bioma e a natureza, realizando a entropia do
sistema econômico Amazônico, tal qual o economista previu quando
associou a questão da entropia aos sistemas econômicos.
A percepção ou expectativa de um crescimento contínuo pode contrapor o
pessimismo inerente à visão entrópica. Contudo, só poderemos
transcender o pessimismo sobre a Amazônia quando começarmos a perceber
um uso responsável de seus recursos e um encolhimento da fome e da
pobreza no seu interior profundo.
Augusto
César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ),
professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto
da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura,
Transporte e Logística.
Fonte: Amazonas Atual